Publicado em 11/02/2018 22:33:22

Conto: Quando o diabo atrapalha seu sono

Uma experiência surreal

Conto: Quando o diabo atrapalha seu sono
A imagem que representa o pesadelo

23h15. Entrou no banheiro e arregalou os olhos para o espelho. A cara era de cansada, não poderia ser diferente, afinal de contas, foi um dia inteiro na faculdade, inúmeras aulas, muitos afazeres e depois aquela esticada básica na academia.

Chegou na frente da pia, tirou os sapatos, balançou o cabelo comprido, e fez aquele exercício com a boca: um bocejo gostoso. Achou que o cabelo estava desarrumado, mas ninguém iria notar naquela noite, pois  não via a hora de cair na sua cama, deitar no meio de seus travesseiros e sentir o frescor de um lençol limpinho. Chovia forte e os trovões assustavam, assim como os relâmpagos que cortavam o quarto.

Passou uma escova no cabelo, escovou os dentes e ouviu um barulho. Foi aquele estampido: “Pá!” Tomou um susto, o coração disparou e veio aquela adrenalina básica, ela caminhou até o corredor e ascendeu a luz. Foi na ponta dos pés até a cozinha. Quando chegou notou o motivo do seu susto e ficou aliviada. Era apenas uma janela que havia batido por causa do temporal.

Aproveitou e tomou uma água e novamente foi para o quarto, queria deitar, nem pensava e ver algum seriado na Netflix porque não tinha coragem e também a tempestade deixava a internet meio lenta, não estava a fim de se estressar.

Colocou aquela camisola transparente, com uma calcinha e um sutiã pretos, não estava ligando para ser sexy, apesar do corpo torneado por horas na academia sempre a deixar com a silhueta deliciosa. Arrancou o sutiã e ficou só de camisola e calcinha, deitou...

Agarrou-se aos travesseiros e fez aquela breve reflexão sobre o seu dia. Pensou cinco minutos e o corpo começou a parar. O peito estava pesado, parecia que tinha 25 quilos em cima dele, uma sensação de sufocamento tomou conta do quarto, o ar ficou pesado, a penumbra convidava ainda mais para o ambiente estressante. Tudo se misturava aos relâmpagos e a agonia era grande.

O corpo estava parado, apenas o seu olhar conseguia passear pelo quarto, ela sentiu um vento que entrava pela janela, por um furinho, mas seus músculos não se mexiam, era como se estivesse pregada na cama, sentia as estacas perfurando suas mãos.

A sensação era conhecida, mas dessa vez parecia ser mais forte, seu abdômen se contorceu rapidamente depois um clarão invadiu o quarto.

Mexeu apenas os olhos e notou aquela figura, a sombra chegando e entrando no cômodo, sentiu um cheiro forte de enxofre, não conseguia se mexer apenas olhava e via aquela criatura escura se aproximando.

A criatura foi se chegando, usou suas mãos cheias de anéis reluzantes e passou-as pelo corpo da garota que continua pregada. “A vítima” sentiu as mãos pesadas e com aspecto grotesco passeando pelo seu corpo, foi até seus pés, passou pelas pernas, pela barriga, nos seios e depois tocou seus lábios.

A garota percebeu as unhas lhe arranhando os lábios! Queria gritar, mas não podia! Estava presa e não consegui se desvencilhar, viu a criatura pular sobre ela, a cama aguentou e nem se mexeu, apenas o cheiro ficou mais forte no quarto.

A criatura sentou em sua barriga, a olhou com um ar de desdém e com aquele aspecto que dizia, mesmo no silêncio: “Você é minha!”

De fato, ela era. Não podia fazer nada, não se mexia, apenas sentia o peso do corpo da criatura em cima de sua barriga, fazendo seu tronco de banco. As mãos ficavam passando por seus cabelos de várias formas, como se existisse uma paixão por ali, mas na verdade a única coisa que a sua vítima sentia era o medo, sem poder fazer nada.

A criatura saltou, saiu da sala e voltou com velas nas mãos, as ascendeu em volta da cama e deixou o local com um ar de ritual.

Imagine você, vendo tudo isso e não podendo fazer nada, apenas sentindo seu coração vir à boca justamente num momento em que o sobrenatural parece estar tão real e dentro do seu quarto.

As velas estavam acesas, a sala iluminada como se fosse um local de sacrifício e a vítima apenas olhava e acreditava que estava enfeitiçada por alguma manifestação de outro mundo. Parada na frente da garota, a criatura fez um gesto como se estivesse dando um passe de mágica ou então procurando um encantamento qualquer.

Ergueu as mãos e  rapidamente as abaixou e uma espada apareceu. Correu para o lado da garota e passou a lâmina pelo seu corpo, ela sentiu aquele fio gelado percorrendo suas pernas e a única coisa que conseguia ouvir naquele momento eram as batidas a mil por hora do seu coração.

Estava decidido. A criatura iria colocar em prática seu ritual macabro, tomou a espada mais uma vez, a levantou e com força iria cravar na sua vítima estatelada em cima da cama.

Num estampido, um raio e um trovão tomaram conta da casa, a menina enfim se soltou e estava pronta para correr, mas se levantou e sentou na cama, abriu seus olhos e notou que a casa estava lá, não tinha velas, não tinha nada, não tinha cheiro de enxofre e tudo aquilo que parecia ter durado pelo menos uma hora não havia passado de 5 minutos.

Ela se deitou às 23h25 e naquele momento eram 23h30, Madeleine teve apenas mais um episódio de paralisia do sono, doença que a perseguia há tempos e que atinge muitas pessoas que sequer sabem que ela existe. Na maioria das vezes, o diabo está dentro de nossa própria cabeça, basta um estalo para despertamos.

Renato Chimirri

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